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BLOG DE ADRIANO FREITAS

 
 
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RELEVÂNCIA E IMPRESCINDIBILIDADE

2026-08-12
RELEVÂNCIA E IMPRESCINDIBILIDADE

Hoje eu vou falar sobre palavras que parecem simples: relevância e imprescindibilidade. Parecem coisas simples, mas que, na verdade, governam praticamente toda a nossa experiência consciente — em especial, a relevância. Ela governa tudo o que fazemos. Por que algumas pessoas passam anos presas, remoendo uma crítica que foi recebida lá na infância, enquanto outras recebem críticas ou questões até mais pesadas e esquecem rapidamente, sem ficar remoendo? Por que conseguimos ignorar centenas de estímulos ao nosso redor e, de repente, uma única palavra, um rosto, uma mensagem ou um barulho captura totalmente a nossa atenção? E uma questão que talvez incomode muita gente tem a ver com a imprescindibilidade: será que somos tão importantes quanto acreditamos ser?

Do ponto de vista da neurociência, a relevância é um mecanismo fundamental para a nossa sobrevivência, mas, ao mesmo tempo, pode ser uma das maiores fontes de sofrimento psicológico. Quero aqui falar um pouco sobre como o cérebro decide o que merece ou não atenção, como isso influencia a nossa capacidade de resolver problemas e como, muitas vezes, atribuímos importância exagerada a nós mesmos, aos nossos erros e às nossas preocupações.

Para destrinchar esses assuntos, vamos voltar a um conceito que venho abordando sempre em meu podcast: o cérebro não vê a realidade, ele seleciona a realidade. Eu até já citei uma frase de uma série de TV que diz que "a realidade é uma invenção da sua imaginação". Cada pessoa tem o seu próprio conceito de realidade e enxerga o mundo de uma forma particular. Existe uma ideia difundida de que percebemos o mundo exatamente como ele é, mas isso está longe de acontecer.

A cada segundo, nossos órgãos sensoriais recebem milhões de informações. São sons, imagens, cheiros, temperatura, percepção da posição do corpo, movimentos e diversos estímulos externos. Se o cérebro tentasse processar tudo isso de forma consciente, ele simplesmente não daria conta; entraria em colapso. Por isso, ele funciona como um filtro. Existe um conceito na neurociência conhecido como salience — ou saliência, na tradução para o português —, que é justamente a capacidade de determinar quais estímulos são relevantes. Dentre esses milhões de estímulos que recebemos, o que realmente importa?

Diversas estruturas cerebrais participam desse processo, com destaque para a ínsula (em especial, a ínsula anterior) e o córtex cingulado anterior. Eles formam o que os pesquisadores chamam de "rede de saliência". É como se fosse o editor-chefe de um jornal: chega um monte de notícias e ele precisa selecionar o que vai para a edição final. Essa seleção é influenciada por emoções, experiências passadas, traumas, recompensas e expectativas. Por exemplo, se você acaba de comprar um carro vermelho, de repente, parece que a cidade inteira passou a ter carros vermelhos. Você já deve ter tido a experiência de adquirir algo e, a partir desse momento, passar a ver todo mundo com aquilo. Não é que as pessoas te imitaram; aquela proporção de carros vermelhos sempre esteve lá. O que mudou foi que o seu cérebro passou a dar mais relevância a isso, tornando o objeto mais perceptível no seu dia a dia.

É aí que entra a dopamina. Muitas pessoas acreditam que a dopamina serve apenas para gerar prazer, satisfação e sinalizar a recompensa por algo feito corretamente. Mas, como já repeti várias vezes aqui, não é só isso. A dopamina também está ligada à motivação e às expectativas futuras. O cérebro está o tempo todo se perguntando: "Será que isso merece minha atenção? Devo me preocupar com isso?". A dopamina está envolvida nessa resposta, sinalizando se algo merece ou não a atenção cerebral. Quando algo inesperado acontece, especialmente se envolver uma ameaça ou uma recompensa, ocorre um aumento na liberação e no processamento de dopamina.

É por isso que as notificações de celular são tão eficientes em prender a nossa atenção. O cérebro as interpreta como eventos inesperados. Por mais que ele saiba que as notificações aparecem o tempo todo, ele não prevê o conteúdo. Foi um aviso do banco? Uma mensagem de um familiar? Essa imprevisibilidade atrai a atenção e desperta o pensamento: "Isso pode ser importante; e se eu ignorar?". Assim, ficamos sempre alertas, esperando que algo relevante chegue a qualquer momento. As redes sociais exploram muito bem esses mecanismos com curtidas, comentários e mensagens, criando um feed de estímulos imprevisíveis que capturam os usuários. Nosso cérebro é ancestral, originalmente preparado para procurar comida, parceiros e perigos. Mas, agora, ele está precisando se readequar e se adaptar para procurar "notificações".

Isso nos leva a uma questão muito interessante sobre a cognição humana: ao contrário do que muitos pensam, não resolvemos problemas apenas com inteligência; nós os resolvemos de acordo com aquilo que julgamos importante. Imagine duas pessoas com capacidades semelhantes enfrentando o mesmo desafio profissional, no mesmo ambiente. Uma delas pode interpretar o desafio como uma oportunidade de crescimento, enquanto a outra pode enxergá-lo como uma ameaça à própria imagem. Os cérebros ativarão circuitos completamente diferentes. Quando a ameaça emocional se torna excessivamente relevante, regiões como a amígdala aumentam sua atividade para lidar com o perigo. Em contrapartida, áreas ligadas ao planejamento, raciocínio e tomada de decisão — em especial, o córtex pré-frontal — acabam tendo um desempenho reduzido, justamente porque o lado instintivo e emocional está ressaltado.

Resumindo: quanto mais emocionalmente relevante algo for, menos racionalmente conseguiremos lidar com aquilo. Funciona como uma balança: quando o emocional sobe, o racional desce, e vice-versa. Muitas pessoas já observaram isso na prática. Às vezes, um problema parece gigantesco à noite. Ficamos remoendo a situação antes de dormir, como se fosse um obstáculo absurdo. Porém, quando chega a manhã, à luz do dia, o problema muitas vezes parece bem menor. Ele não mudou da noite para o dia; o que mudou foi a relevância que o cérebro atribuiu a ele. À noite, devido a questões emocionais e hormônios ligados ao ciclo do sono, a relevância do problema foi amplificada. Pela manhã, o cérebro se reorganiza, compara a situação com outras rotinas e reduz essa relevância, tornando o problema mais brando e viável de ser enfrentado.

Existe também um fenômeno amplamente estudado chamado "efeito holofote". Tendemos a acreditar que as pessoas estão prestando muito mais atenção em nós do que realmente estão, como se houvesse um holofote sobre as nossas cabeças. Às vezes, levamos um tropeço em público e imaginamos que todos vão lembrar daquilo para o resto da vida, quando, na verdade, o ocorrido foi completamente insignificante para os outros. Às vezes, dizemos algo inadequado em uma reunião e acreditamos que aquilo ficará marcado, mas frequentemente não durará nem minutos na memória alheia.

A verdade é que, para cada indivíduo, as coisas que lhe dizem respeito têm uma relevância muito maior. Em um grupo, o que você faz ou fala nem sempre tem o mesmo impacto para o outro do que as próprias ações dele. O que me dizem numa reunião costuma ter bem menos peso do que aquilo que eu mesmo fiz ou pensei durante e depois dela. O efeito holofote é justamente essa ilusão de achar que somos extremamente importantes para os demais. Muitas vezes as pessoas não estão nem aí para a nossa história, e nós criamos a sensação de que elas estão reagindo por nossa causa, o que raramente é verdade. Elas estão, na grande maioria das vezes, preocupadas com as próprias vidas. Nós somos o centro da nossa consciência, não da consciência dos outros. Isso gera várias reflexões, pois muitas pessoas entram em um estado de ansiedade patológica simplesmente por superestimarem sua relevância social, imaginando ser o centro das ações alheias.

Isso nos leva a uma ideia que pode parecer dura ou cruel, mas que pode nos libertar: a imprescindibilidade. Costumamos acreditar que somos imprescindíveis e indispensáveis no trabalho, na família, nos grupos sociais e nos projetos em que atuamos. Mas não é bem assim. Por mais que as pessoas gostem de nós e que nosso trabalho seja relevante, basta olhar para a história. Grandes líderes mundiais morreram, cientistas brilhantes partiram, artistas que pareciam insubstituíveis desapareceram. E o que aconteceu? O mundo continuou. As empresas continuaram funcionando, as famílias reorganizaram suas rotinas e outras pessoas assumiram as funções de quem se foi.

Isso significa que essas vidas não tiveram valor? De forma alguma! Muitas tiveram um valor inestimável para a humanidade. Mas isso prova que a vida possui uma incrível capacidade de adaptação. Existe uma frase de autoria incerta, que soa rude ou pesada, mas que traz uma grande verdade: "Os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis". Embora pareça pessimista, podemos olhar por outro ângulo: você não precisa carregar o peso do mundo nas costas. Não precisa agir como se todos os problemas fossem sua responsabilidade, ou acreditar que, se cometer um erro, tudo estará perdido. Com ou sem erros, a vida sempre continua.

Dessa reflexão, tiramos um conceito vital: a única pessoa para quem você realmente é indispensável é para você mesmo. Essa é a única exceção. Para você, a sua existência é absoluta. A sua consciência é o único lugar onde a sua experiência acontece. Se você negligenciar a si mesmo, seus pensamentos e sua saúde mental, ninguém poderá resolver isso no seu lugar, pois ninguém consegue viver a consciência do outro. As pessoas podem te amar, idolatrar e sofrer muito com a sua ausência, mas nenhuma delas ocupará a posição central da sua própria experiência consciente.

Portanto, a pessoa a quem você mais deveria dedicar tempo e cuidado é justamente aquela que costuma ficar em último lugar: você. Isso não significa abandonar as outras pessoas ou deixar de se importar com a família. O que está em questão não é isso. Devemos continuar ajudando e nos preocupando com os outros, pois uma boa vida em sociedade se constrói com apoio mútuo. A questão é que você não pode se deixar de lado. Por mais que os outros se preocupem com você, a ajuda deles esbarra em um limite: eles não conseguem entrar na sua mente para resolver seus conflitos internos. Da mesma forma, a sua capacidade de ajudar o próximo também tem um limite prático.

Para vermos o lado prático disso tudo, quando entendemos como o cérebro atribui relevância, podemos começar a fazer perguntas que nos ajudam a resolver problemas. Diante de um obstáculo, podemos nos questionar: "Esse problema é realmente tão grande, ou meu cérebro está apenas amplificando sua potência e lhe dando relevância exagerada?". Ao recebermos uma crítica, vale pensar: "Isso vai mudar a minha vida daqui a cinco anos, ou é algo pontual que logo vai passar?". Se passarmos por uma situação constrangedora, a pergunta deve ser: "Essa vergonha vai ficar na memória das pessoas ou apenas na minha? Com tantos problemas no mundo, será que alguém vai se lembrar disso daqui a alguns meses?".

Além disso, podemos avaliar se a nossa dificuldade em resolver um conflito se deve ao excesso de envolvimento emocional. Lembrando da balança entre emoção e razão, muitas vezes a solução só aparece quando conseguimos reduzir a carga emocional e observar o cenário com certo distanciamento. Se um problema nos causa raiva ou emoções muito fortes, dificilmente o resolveremos bem no calor do momento, pois as áreas emocionais do cérebro estarão se sobressaindo àquelas responsáveis pelo raciocínio lógico.

Tenho uma colega advogada que costuma dizer que, ao receber uma decisão desfavorável de um juiz, nunca responde no mesmo dia. A raiva e a revolta a impedem de redigir a melhor resposta. Por isso, ela espera, dorme, respira e só age quando consegue se distanciar emocionalmente do fato. Esse é um conselho sábio. Dar um respiro e esperar a emoção baixar gera soluções muito mais efetivas do que agir no impulso.

Na neurociência, isso tem um nome: reavaliação cognitiva. Não se trata de negar a realidade ou ignorar os problemas, mas de interpretá-los sob uma nova perspectiva. Se algo desperta emoções extremas, é preciso frear o instinto para conseguir decidir com clareza. Não adianta buscar uma solução inteligente no meio de uma forte reação emocional.

Talvez uma das maiores habilidades humanas não seja apenas a capacidade de pensar, mas a capacidade de escolher sobre o que pensar. A relevância organiza a nossa percepção, emoções e identidade. Felizmente, ela não é fixa; pode ser treinada, questionada e reorganizada. O que mais nos liberta dessa carga é perceber que podemos regular essa relevância, questionando se o foco dado pelo cérebro é, de fato, proporcional à realidade. Problemas aparentemente intransponíveis podem ser apenas construções momentâneas do nosso sistema nervoso, um hiperfoco que não condiz com a dimensão real do fato.

Embora sejamos extremamente importantes para nós mesmos, ter a consciência de que o mundo não depende da nossa presença para continuar girando não diminui o valor da nossa existência. Pelo contrário, isso nos permite balancear melhor as coisas e tornar a nossa jornada muito mais leve.

 

Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica, Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica, Neurociência Cognitiva, Trastornos Neurocognitivos)

 

 

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